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Quando a cidade decide quem merece água limpa, áreas verdes e dignidade urbana

Por Wesley Silvestre Rosa

Falar de racismo ambiental em São Paulo exige abandonar a falsa ideia de que a crise ambiental afeta todos da mesma maneira. Não afeta. A degradação ambiental, a ausência de saneamento, a exposição ao risco climático, a escassez de áreas verdes e o abandono do poder público possuem endereço definido.

O conceito de racismo ambiental, desenvolvido por Robert Bullard, ajuda a compreender esse fenômeno: a distribuição desigual dos danos ambientais sobre populações historicamente vulnerabilizadas por raça, classe e território.

Este texto nasce também de uma experiência acumulada de 39 anos vivendo as múltiplas expressões do racismo ambiental na cidade de São Paulo. Antes mesmo de formular publicamente esse debate, eu já o atravessava cotidianamente.

Nasci na Mooca, em uma família trabalhadora ligada ao pequeno comércio. Meus pais mantinham um estabelecimento na região da Bresser, em frente ao antigo posto Texaco, próximo ao metrô. Aos quatro anos, minha família migrou para a Barra Funda, onde meus pais administravam um bar‑restaurante.

Vieram então os deslocamentos sucessivos: Barra Funda, Morro do Macaco Molhado, Santa Terezinha, Jardim Boa Esperança, Jardim da Conquista, até chegar ao Jardim Apurá. Esta não é apenas uma história de mudanças residenciais; é a expressão concreta da periferização, da segregação socioespacial e do racismo ambiental.

Chegar ao Jardim Apurá significou encontrar um território atravessado pelas contradições ambientais e urbanas de São Paulo: uma região estratégica para os mananciais da Represa Billings, mas historicamente marcada pelo abandono institucional, pela precariedade urbana e pela desigualdade socioambiental.

Há pelo menos quinze anos, venho produzindo, tensionando e documentando esse debate na região do Jardim Apurá, dos mananciais da Billings e do Parque dos Búfalos, em uma luta contínua pela justiça ambiental e pela dignidade da população periférica.

Ao longo dessa trajetória, participei de debates públicos, audiências, conselhos, mobilizações comunitárias, pesquisas, entrevistas, reportagens, artigos, denúncias institucionais, inquéritos civis e ações judiciais voltadas à defesa do direito ao meio ambiente equilibrado e ao direito à cidade.

A luta pelo Parque dos Búfalos tornou‑se um símbolo dessa disputa entre preservação ambiental, direito à moradia, planejamento urbano e sobrevivência periférica. Inserido na área dos mananciais da Billings, o parque representa uma disputa sobre quem tem direito ao verde, à água protegida e à dignidade

A periferia produz diariamente cuidado ambiental, plantio urbano, educação socioambiental, mobilização comunitária e defesa territorial. Diferentemente da narrativa dominante, moradores periféricos frequentemente são os principais defensores da preservação ambiental.

Combater o racismo ambiental exige políticas integradas capazes de articular proteção dos mananciais, saneamento universal, habitação digna, regularização fundiária, mobilidade urbana, participação popular e democratização do acesso às áreas verdes.

Enquanto determinados corpos seguirem mais expostos à degradação, enquanto determinados bairros continuarem recebendo menos investimento e enquanto determinadas comunidades permanecerem tratadas como descartáveis na geografia urbana, o racismo ambiental continuará estruturando silenciosamente a cidade.

Referências de apoio: Robert Bullard; Henri Acselrad; Ermínia Maricato; Milton Santos.

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