{"id":981,"date":"2026-05-22T12:09:45","date_gmt":"2026-05-22T15:09:45","guid":{"rendered":"https:\/\/oekobr.org.br\/?p=981"},"modified":"2026-05-22T12:18:04","modified_gmt":"2026-05-22T15:18:04","slug":"a-geografia-do-abandono-racismo-ambiental-entre-a-billings-o-jardim-apura-e-o-parque-dos-bufalos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oekobr.org.br\/?p=981","title":{"rendered":"A GEOGRAFIA DO ABANDONO: RACISMO AMBIENTAL ENTRE A BILLINGS, O JARDIM APUR\u00c1 E O PARQUE DOS B\u00daFALOS"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Quando a cidade decide quem merece \u00e1gua limpa, \u00e1reas verdes e dignidade urbana<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/oekobr.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1000028002-2-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-982\" srcset=\"https:\/\/oekobr.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1000028002-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/oekobr.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1000028002-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/oekobr.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1000028002-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/oekobr.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1000028002-2.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Por Wesley Silvestre Rosa<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Falar de racismo ambiental em S\u00e3o Paulo exige abandonar a falsa ideia de que a crise ambiental afeta todos da mesma maneira. N\u00e3o afeta. A degrada\u00e7\u00e3o ambiental, a aus\u00eancia de saneamento, a exposi\u00e7\u00e3o ao risco clim\u00e1tico, a escassez de \u00e1reas verdes e o abandono do poder p\u00fablico possuem endere\u00e7o definido.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de racismo ambiental, desenvolvido por Robert Bullard, ajuda a compreender esse fen\u00f4meno: a distribui\u00e7\u00e3o desigual dos danos ambientais sobre popula\u00e7\u00f5es historicamente vulnerabilizadas por ra\u00e7a, classe e territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Este texto nasce tamb\u00e9m de uma experi\u00eancia acumulada de 39 anos vivendo as m\u00faltiplas express\u00f5es do racismo ambiental na cidade de S\u00e3o Paulo. Antes mesmo de formular publicamente esse debate, eu j\u00e1 o atravessava cotidianamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nasci na Mooca, em uma fam\u00edlia trabalhadora ligada ao pequeno com\u00e9rcio. Meus pais mantinham um estabelecimento na regi\u00e3o da Bresser, em frente ao antigo posto Texaco, pr\u00f3ximo ao metr\u00f4. Aos quatro anos, minha fam\u00edlia migrou para a Barra Funda, onde meus pais administravam um bar\u2011restaurante.<\/p>\n\n\n\n<p>Vieram ent\u00e3o os deslocamentos sucessivos: Barra Funda, Morro do Macaco Molhado, Santa Terezinha, Jardim Boa Esperan\u00e7a, Jardim da Conquista, at\u00e9 chegar ao Jardim Apur\u00e1. Esta n\u00e3o \u00e9 apenas uma hist\u00f3ria de mudan\u00e7as residenciais; \u00e9 a express\u00e3o concreta da periferiza\u00e7\u00e3o, da segrega\u00e7\u00e3o socioespacial e do racismo ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegar ao Jardim Apur\u00e1 significou encontrar um territ\u00f3rio atravessado pelas contradi\u00e7\u00f5es ambientais e urbanas de S\u00e3o Paulo: uma regi\u00e3o estrat\u00e9gica para os mananciais da Represa Billings, mas historicamente marcada pelo abandono institucional, pela precariedade urbana e pela desigualdade socioambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pelo menos quinze anos, venho produzindo, tensionando e documentando esse debate na regi\u00e3o do Jardim Apur\u00e1, dos mananciais da Billings e do Parque dos B\u00fafalos, em uma luta cont\u00ednua pela justi\u00e7a ambiental e pela dignidade da popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dessa trajet\u00f3ria, participei de debates p\u00fablicos, audi\u00eancias, conselhos, mobiliza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, pesquisas, entrevistas, reportagens, artigos, den\u00fancias institucionais, inqu\u00e9ritos civis e a\u00e7\u00f5es judiciais voltadas \u00e0 defesa do direito ao meio ambiente equilibrado e ao direito \u00e0 cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta pelo Parque dos B\u00fafalos tornou\u2011se um s\u00edmbolo dessa disputa entre preserva\u00e7\u00e3o ambiental, direito \u00e0 moradia, planejamento urbano e sobreviv\u00eancia perif\u00e9rica. Inserido na \u00e1rea dos mananciais da Billings, o parque representa uma disputa sobre quem tem direito ao verde, \u00e0 \u00e1gua protegida e \u00e0 dignidade<\/p>\n\n\n\n<p>A periferia produz diariamente cuidado ambiental, plantio urbano, educa\u00e7\u00e3o socioambiental, mobiliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e defesa territorial. Diferentemente da narrativa dominante, moradores perif\u00e9ricos frequentemente s\u00e3o os principais defensores da preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Combater o racismo ambiental exige pol\u00edticas integradas capazes de articular prote\u00e7\u00e3o dos mananciais, saneamento universal, habita\u00e7\u00e3o digna, regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, mobilidade urbana, participa\u00e7\u00e3o popular e democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0s \u00e1reas verdes.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto determinados corpos seguirem mais expostos \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o, enquanto determinados bairros continuarem recebendo menos investimento e enquanto determinadas comunidades permanecerem tratadas como descart\u00e1veis na geografia urbana, o racismo ambiental continuar\u00e1 estruturando silenciosamente a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias de apoio: Robert Bullard; Henri Acselrad; Erm\u00ednia Maricato; Milton Santos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a cidade decide quem merece \u00e1gua limpa, \u00e1reas verdes e dignidade urbana Por Wesley Silvestre Rosa Falar de racismo ambiental em S\u00e3o Paulo exige abandonar a falsa ideia de que a crise ambiental afeta todos da mesma maneira. 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